5# INTERNACIONAL 29.10.14

O HERI DA MAA
Dois jovens convertidos ao islamismo e influenciados pelo grupo terrorista Isis promovem atentados no Canad. Um deles foi detido pelo sargento de armas do Parlamento.
FELIPE CARNEIRO 

     Arma medieval empunhada pelos homens que faziam a escolta do rei, a maa passou a ter uso cerimonial na Inglaterra no sculo XIII. No Canad,  colocada sobre uma mesa no centro das sesses da Cmara dos Comuns, equivalente  Cmara dos Deputados, onde ela permanece enquanto prosseguem os debates do dia. Feita de prata e folheada a ouro, a pea representa a autoridade da coroa e do Parlamento. O responsvel por carreg-la tem o ttulo de sargento de armas e  tambm quem deve cuidar da segurana do recinto. Na quarta-feira 22, em Ottawa, o sargento de armas canadense Kevin Vickers, de 58 anos, fez jus  sua atividade, que desempenha desde 2006. Durante os 29 anos em que atuou na Real Polcia Montada da cidade, ele nunca precisou atirar contra um bandido. Pois foi na funo majoritariamente cerimonial que exerce no Parlamento que Vickers se viu obrigado a usar pela primeira vez sua pistola 9 mm, para evitar que Michael Zehaf-Bibeau, um canadense convertido ao islamismo de 32 anos, matasse os legisladores e demais funcionrios da casa. Se Vickers representa a civilidade e a ordem do tranquilo Canad, Bibeau simboliza a barbrie do terrorismo islmico. 
     O atentado comeou um pouco antes das 10 da manh, quando Bibeau desferiu quatro tiros pelas costas no cabo Nathan Cirillo, casado e pai de uma criana de 3 anos, que fazia a guarda de um monumento aos cados em guerras. Enquanto o soldado agonizava, o atirador roubou um carro e se dirigiu ao porto leste do Parlamento. No se sabe ainda como ele passou pela segurana para entrar no prdio, mas  certo que no h detectores de metal nem aparelhos de raios X no acesso ao hall principal. Nesse local, Bibeau voltou a disparar sua arma. Mais de trinta tiros foram ouvidos. Trs pessoas ficaram feridas. Enquanto alguns policiais corriam para det-lo, outros orientavam as pessoas a se esconder e fugir. Deputados e funcionrios empilharam mveis atrs da porta das salas em barricadas improvisadas. Quando Bibeau tentou entrar na biblioteca, Vickers o acertou com um tiro. O incidente no durou mais do que trs minutos, mas o pnico levou horas para se dissipar, porque no se sabia se o terrorista tinha um ou mais cmplices. 
     Bibeau  o que os especialistas em terrorismo chamam de lobo solitrio.   aquele que no tem relaes diretas com grupos terroristas, e que planeja e executa suas aes sozinho. Outro caso parecido ocorreu no incio da semana passada em Qubec, tambm no Canad. Na segunda-feira 20, Martin Couture-Rouleau, de 25 anos, atropelou intencionalmente dois soldados. Um deles morreu. Aparentemente, no h relao entre os dois terroristas, mas h muitas semelhanas entre eles. Tanto Bibeau quanto Couture se converteram recentemente ao islamismo. Os dois tambm j haviam demonstrado nas redes sociais que planejavam integrar as fileiras do Estado Islmico (ex-Isis), o grupo radical que escraviza e apedreja mulheres e extermina minorias religiosas no Iraque e na Sria. Quando o Canad anunciou sua adeso  coalizo internacional que combate o grupo, seus lderes orientaram os simpatizantes a matar canadenses onde quer que estivessem. 
     Os dois assassinos da semana passada j estavam sendo vigiados pelo servio de inteligncia canadense. Quando tentaram viajar para o Oriente Mdio, tiveram o passaporte apreendido e ficaram impedidos de deixar o Canad. A ameaa, ento, ficou por l mesmo. Em entrevista ao jornal canadense The Globe and Mail, Dave Bathurst, um amigo de Bibeau, disse que ele era uma figura errtica, que acreditava estar sempre sendo perseguido por demnios. "Eu acho que ele tinha algum distrbio mental", disse Bathurst. Segundo as autoridades canadenses, h no pas cerca de noventa indivduos que, como Bibeau e Couture-Rouleau, foram impedidos de ir para o Oriente Mdio. " muito difcil detectar previamente um lobo solitrio. Mesmo quando isso  possvel, as leis ocidentais impedem que se prenda quem ainda no praticou nenhum crime.  um dilema", diz o cientista poltico ingls Joseph Crter, do Centro Internacional para o Estudo da Radicalizao, em Londres. No dia seguinte ao atentado, os parlamentares voltaram ao trabalho. Todos guardaram um minuto de silncio em homenagem a Cirillo. Vickers entrou na Cmara com sua maa. Foi ovacionado e emocionou-se. A me de Bibeau, chefe do departamento de imigrao do governo canadense, disse que no chorava pela morte do filho, e sim pelo soldado morto. Ela tambm  uma vtima do radicalismo.


